
Morava sozinho. Visitas semanais de uma irmã velha, doente e triste. Eu, nas minhas passeadas, sempre procurando um norte, nunca encontrado. nunca trabalhei, embora fosse formado em direito. Vivia com a pequena fortuna deixada pelos meus pais, com a qual comprei uma casa na qual morava na epóca destes acontecimentos. Minha irmã, hoje falecida, era alguns anos mais velha do que eu. Quatro, cinco, seis anos. Não me lembro. Após a morte de seu marido, vítima de uma doença então inexplicável, ela fechou as portas e janelas. A luz de um arco-íris se transformou na escuridão de uma cova. Sua única ligação com o sentido que muitos dão à palavra humanidade, era um filho, nascido pouco antes da partida de seu marido. Mas a Morte é sorrateira. Tenta nos carregar pra dentro de seu negro manto. Rumo ao frio que não se esquenta, a tristeza que não se alegra, o precipício que não termina. Não tardou, seu filho partiu para a melhor. Ou pior. Ou simplesmente morreu. A vela que um dia havia sido fogueira, se apagou de vez.
Você pode pensar que é estranho eu falar tanto de minha irmã, e tão pouco de mim, mas lembre-se que em momento algum eu disse o que aconteceria, nem com quem aconteceria. Minha irmã era a única capaz de passar pelo que passou, a única capaz de saber o que fazer. Uma pena que tenha acontecido daquela maneira.
Era verão, chovia, mais do que o normal. O frio começava a chegar, lento e decidido. Minha irmã havia chegado para mais uma de suas visitas. Ela dizia que vinha cuidar de mim. Mas eu penso que no fundo, ela vinha em busca de ter mais alguém, preenchendo o vazio de uma vida despedaçada pelos males de um mundo hostil.
Ela nunca havia me explicado a causa da morte de seu filho. E eu nunca perguntei, até porque sabia que isso doía em seu coração.
Uma noite,, estavamos sentados à beira do lago, quando do nada, como se as estrelas estivessem ali, surgiu uma forte luz no fundo do lago. A luz tomou forma. Eu já não entendia nada. Minha irmã conversava com ela mesma, só queu ma reflexão juvenil, alegre, com brilho nos olhos.
A reflexão falava de acidente, que ela não deveria se culpar. Que minha minha irmã havia se tornado uma velha cheia de arrependimentos, esperando pra morrer sozinha. Minha irmã chorava, dizia que a culpa era sim dela, e foi pra dentro de casa.
A luz se apagou, e junto com ela a luz fraca de um poste que nos iluminava. Logo depois, em meio à escuridão e ao frio, ouvi um tiro. Não sei quanto tempo se passou até que reagi ao som, dez, quinze, vinte minutos. Encontrei um bilhete com a mensagem "Acorde. Te vejo do outro lado". Entrei no quarto, minha irmã esticada na cama, de olhos abertos. Momentaneamente, seus olhos brilharam.
Muito bonito o texto! ^^
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