Tem um pinheiro na frente do poste. Coisa mais engraçada, um pinheiro em Goiânia. Um poste aceso em Goiânia. Quando pequeno sonhava com neves, Papai Noel, renas e pinheiros. Mas eram pinheiros diferentes. Aqueles eram bonitos. Eram pinheiros dos livrinhos infantis. Eram vários cones verdes, com luzes de natal. Esse pinheiro é estranho. Tem uma sombra estranha. Tem uma cor estranha. Tem um tamanho estranho. É um pinheiro em Goiânia, isso é estranho.
O tempo passa para pinheiros. O tempo passa para postes. Da minha janela eu via tudo. Via a luz, via a sombra. Via galhos crescendo, e galhos caindo. Vi natais. Vi carnavais. Vi promessas. Vi alegrias e vi tristezas. Tudo entre o pinheiro e o poste. Eu saía, eu voltava. Eu ia, e eu vinha. Eu nunca saía do mesmo lugar. Futebol, bicicleta, beijos, abraços, aviões, ônibus, músicas e filmes, triângulos e retângulos. E sempre lá, até quando nevava no cerrado, o pinheiro e o poste.
Da minha janela eu via muitos postes. Da minha janela eu via muitos pinheiros. Mas nenhum par de postes e pinheiros era como esse meu par. Nenhum pinheiro era tão estranho. E nenhum poste era tão alto. Eu não me lembro de quando plantaram esse pinheiro. Não me lembro de quando fincaram esse poste no chão. Lembro que estão aí, desde sempre. Pinheiro e poste. Concreto e madeira. Eletricidade e natureza.
Pipas se prenderam no meu pinheiro. Galhos caíram. Nomes foram riscados e apagados. Fios foram puxados do meu poste. Casas foram erguidas, e derrubadas. Por várias vezes, iluminou a noite. E eu da minha janela, observando tudo ao longe.
Nunca fui muito próximo de nenhum dos dois. Nunca conheci completamente nenhum dos lados. Nunca conheci. Mas era o meu par. Por mais desconhecido, sombrio, e assustador que pudesse ser, era meu, desde sempre, deveria ser para sempre. O tempo passa. Para pinheiros. E para postes. Ambientalismo, urbanização, desmatamento, supervalorização, desacato, superinformação.
O poste se empenou para um lado. Se afastou do pinheiro. O pinheiro cresceu novos galhos, em outras direções. Pareceu que tinham se esquecido que tinham suas bases no mesmo lugar, no mesmo pedaço de terra. E eu da minha janela.
Eu não sei o que dizer sobre meu pinheiro e meu poste. Eu não sei mais o que dizer sobre minha janela. Não sei mais o que dizer sobre as ruas, sobre as lâmpadas dos postes, sobres os ratos do esgoto. Eu já tive tanta certeza da minha janela. Eu já tive tanta certeza de qual rumo iriam meus galhos. Eu já sonhei tanto com o que eu iria iluminar com meu poste. E hoje eu não sei mais. Não sei. Não mais.
Lembro de tantos ditados da época de criança. Lembro de tantos velhos. De tantas pessoas. O que faz cada um diferente de mim, diferente de si mesmo ? O que difere cada poste ? O que marca cada pinheiro ? Me disseram que eu cresci. Mas minha janela continua ali. Empoeirada. Vidros arranhados. Do lado de fora da poeira eu vejo meu poste. Eu vejo meu pinheiro. Eu vejo a ordem, eu vejo o caos, eu vejo a dor e eu vejo o amor. Eu vejo o que nunca vi, vejo o que nunca verei. Vejo desejos, vejo anseios. Vejo um falso pinheiro goiano. Vejo um escuro poste de rua. Procuro brilho. Procuro luz. Procuro a união, a parceria. Procuro. Não acho.
Minha janela já foi mais do que janela. Minha janela já foi meu retrato, meu espelho. Eu já fui mais do que sou hoje. Já esperei mais do que espero hoje. Já quis mais do que quero hoje. Tive mais pressa, tive mais tanta coisa que não me lembro hoje.
Hoje eu não sei mais separar poste de pinheiro. Não sei mais separar muita coisa de tanta coisa. Mas aí, eu me lembro. Eu não acredito mais em pinheiros falsos do cerrado. Eu não acredito mais na luz fria de postes sem lâmpada. Eu não tenho mais fé nas mentiras de outras épocas. Já não acredito mais em pinheiros, neve, renas e Papai Noel. Já não acredito em mais nada.
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