domingo, 15 de julho de 2012

Para:

Tudo movimenta. Todo movimento. Tudo envelhece. Todo envelhecimento. Toda sensação. Todo sentimento. Todo aborrecimento. Tudo, todo. Todo tudo. É luz, é claridade. É corrida, é obesidade. É a roça dentro da cidade.
Venta frio lá fora. Venta lá fora. Venta. Lá. Fora. Fora de mim, fora de si. O vento que passou em toda a cidade, dobrou em toda esquina. O vento que leva o sujo e deixa o novo. Não leva, não deixa. Não é sujo, não é novo. O vento vem e vai. Daqui eu vejo a poeira. São três da manhã e você em pé no escuro, com sua individualidade urbana. Essa é sua cidade, esse é seu progresso. Potes de poluição revestidos de alegria.
Amanhã é logo ali. Ontem esteve por aqui não tem muito tempo. E se não houvesse tempo ? Você ia ficar parado, para sempre. Olhando pra trás, por cima do próprio ombro, vendo a poeira que ergueu na estrada. A poeira passa. A poeira abaixa. E você não para de olhar.
O mesmo cachorro mija no mesmo poste todo dia. A mesma mãe busca o mesmo filho no mesmo colégio todo dia. Todo dia a mesma igreja acusa outra da mesma heresia. Todo dia o dia é dia, e ninguém vê que, não é o mesmo cachorro, não é o mesmo poste, a mesma mãe, o mesmo filho, o mesmo colégio, a mesma igreja, a mesma heresia. Não é o mesmo dia.
Um avião passa na mesma rota no mesmo horário. Da janela do meu banheiro eu vejo sua luz piscando, no céu cinza da noite. Vermelho, verde, vermelho, verde, vermelho, verde. Nuvens amarelas, fumaça e imensidão. Venta lá fora, entra o frio pela janela, fecho a visão do céu. Amanhã ele passa de novo. Se não cair, se não sumir, se quiser, se puder. Se passar. Amanhã ele passa de novo.
Eu queria conseguir tirar fotos de metade das estrelas que eu vejo no céu. Eu queria sonhar metade das coisas que já pensei em sonhar. Eu queria ser metade do que eu queria ter sido. Ter metade do que eu queria ter tido.
Eu te vejo daqui. Eu te vejo de todo lugar.Eu te vejo aqui. Eu te vejo em qualquer lugar. Mas moça, entenda. Isso não é sobre o que eu quero dizer. É sobre o que você quer entender. Não é sobre o que foi, e o que é pra ser. É sobre tudo que acontecer.
Às vezes penso no seu cheiro, moça. Às vezes penso em você, moça. Mas tudo movimenta. Tudo envelhece. Toda sensação, todo aborrecimento. É luz, é ingenuidade. Já senti falta de você, moça. Tanta sensação, tanto aborrecimento. Mas eu envelheci. E comigo o sentimento.
Daqui eu vejo o vento frio lá fora. As pessoas com frio. Os cachorros com frio. Eu com frio. Mas eu não estou lá fora. Eu não estou em lugar nenhum. Isso não é sobre mim, moça. Não é sobre você. É sobre quem ler. É sobre qualquer um que tente ser. É sobre qualquer coisa que acontecer.
São três da manhã e eu sentado no meu escuro. São três da manhã, e eu não saí de cima do muro.

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