quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Branco. Alto. Boa aparência. Bem vestido. Risonho. Características pelas quais todos sonham serem lembrados. Mas ninguém tem vontade de dividir com ele a marca que ele carrega na perna. Ninguem quer ter essa característica marcante. Na verdade, deixar de ter. Ele não tinha a perna. O curativo da amputação recente marcava onde ele tinha um joelho. Pela maneira que ele estava, havia perdido o membro há não mais que 1 mês. E eu passando de ônibus, vi toda aquela alegria daquele sorriso, e ao olhar melhor, vi um par de muletas. Olhei mais abaixo, e não encontrei um par de pernas. Pode ser que ele tenha perdido a perna em um acidente de trânsito,provavelmente não por culpa dele, porque acho que ele não tinha idade para dirigir. Pode ter sido culpa de uma doença, Pode ter sido fruto de uma festa além da conta. Não importa a causa, a consequência será sempre cruel. O que ele perdeu, não foi somente a perna. Junto com ela, se foram oportunidades de emprego, de viagens, de férias. E o máximo que as pessoas fazem é passar ao lado dele, no centro movimentado da cidade, no meio da avenida que leva o nome do estado, e simplesmente olhar. Olhar, e desejar que aquilo nunca aconteça com eles. Porque, mesmo que aquela visão os incomode, já estão acostumados a ver aquilo diariamente nos jornais. Tragédias diárias, na hora do café, do almoço, do jantar. Acostumados a não reagir, acostumados ao sensacionalismo. O infeliz que perdeu a perna, recebe no máximo um "Coitado!". Mas quando alguém morre em algo inflado pela mídia, é aquele alvoroço.Hipocrisia ? Talvez essa seja a palavra certa. Falta de senso ? Melhor ainda. Mas no fundo, não dá pra saber ao certo a culpa de quem. Mas eu sei de uma coisa. Aquele sujeito, atravessando a avenida, me fez pensar muito. E agora vejo, que a perda dele não foi só a perna. Ele perdeu a dignidade. Pois em todos os lugares dessa sociedade ignorante e inútil, as pessoas o olharão como se ele fosse algo recém saído de uma nave espacial.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Eu sei, mas não devia
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti
quinta-feira, 15 de abril de 2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
Dia a dia curto, normal e morto.
A gente tem que tá alerta! Eu já estou debaixo da coberta...
E o medo faz bastante gente se esconder
Lá fora faz um tempo o quê mesmo Zé? Confortável...
Lá fora faz um tempo confortável e a segurança cuida do normal
Não sei dizer o que é mais frio, se é o ar do meu próprio condicionador de ar
Ou se o vento que bate no telhado da casa
Mas, eu saberia dizer se a comparação fosse feita entre uma pedra fria de gelo
E o semblante de todos os assaltantes que andam na cidade escura às escuras
E isso é o normal...
Eu já até sei o que se passa na cabeça dos policias
Eles já estão acostumados a lidar com isso
Sabem todos os esquemas de negociação
Esquemas esses que eu nem sei como eu aprendi
Deve ter sido num desses papos de boteco
Boatos de boteco...
E isso é o normal...
A gente cuida disso também!
Sinuca, cerveja, samba e confusão
Esse é o dia na cidade, antes que escureça
Depois disso ela morre! Volta toda aquela dúvida sobre a temperatura
Não há mais nada vivo...
A não ser as casas que respiram
Como se fossem ursos hibernando toda noite
Se eu olhar pela fresta é como se visse um rastro de z
Cortando o céu, arrancado com aquele vento fraco
Alguns se arriscam caminhando, mas eu não!
E afinal de contas para onde eu iria?
Para o botequim, mas pra que?
Se eu já cansei daquela Brahma gelada, do coro da rapaziada
Da sensação de bem estar e de toda aquela putaria
Eu vou é ficar aqui e esperar a cidade terminar de morrer
Amanhã tudo morre de novo
Esse desânimo, essa noite fria
Esse cansaço, E volta toda a euforia!
Henrique Napolião Barreto
E o medo faz bastante gente se esconder
Lá fora faz um tempo o quê mesmo Zé? Confortável...
Lá fora faz um tempo confortável e a segurança cuida do normal
Não sei dizer o que é mais frio, se é o ar do meu próprio condicionador de ar
Ou se o vento que bate no telhado da casa
Mas, eu saberia dizer se a comparação fosse feita entre uma pedra fria de gelo
E o semblante de todos os assaltantes que andam na cidade escura às escuras
E isso é o normal...
Eu já até sei o que se passa na cabeça dos policias
Eles já estão acostumados a lidar com isso
Sabem todos os esquemas de negociação
Esquemas esses que eu nem sei como eu aprendi
Deve ter sido num desses papos de boteco
Boatos de boteco...
E isso é o normal...
A gente cuida disso também!
Sinuca, cerveja, samba e confusão
Esse é o dia na cidade, antes que escureça
Depois disso ela morre! Volta toda aquela dúvida sobre a temperatura
Não há mais nada vivo...
A não ser as casas que respiram
Como se fossem ursos hibernando toda noite
Se eu olhar pela fresta é como se visse um rastro de z
Cortando o céu, arrancado com aquele vento fraco
Alguns se arriscam caminhando, mas eu não!
E afinal de contas para onde eu iria?
Para o botequim, mas pra que?
Se eu já cansei daquela Brahma gelada, do coro da rapaziada
Da sensação de bem estar e de toda aquela putaria
Eu vou é ficar aqui e esperar a cidade terminar de morrer
Amanhã tudo morre de novo
Esse desânimo, essa noite fria
Esse cansaço, E volta toda a euforia!
Henrique Napolião Barreto
Cansei. Cansei de viver em um mundo onde você deve vasculhar cada corredor, cada beco, cada esquina. Cansei de ter que desconfiar de tudo e todos. Antigamente, se alguém puxava assunto com você na rua, você pensava que poderia ser alguém bem intencionado. Hoje se pensa da seguinte forma: Esse cara só pode querer três coisas. Minha carteira, meu rim ou minha bunda. Cansei de um mundo onde as pessoas na rua são cada vez mais frias, onde, mesmo estando entre mil, você se sente sozinho. Cansei dessa gente que no fundo, adoraria te ver no chão, mas no dia a dia fica bajulando, como se ela se importasse com você. Cansei dessa mídia, dessa moda, que projeta as pessoas para a anecefalia, onde coisas ridículas viram sensação,e o que merece atenção, se ignorado pela mídia, não vira mania, não recebe a atenção merecida. Cansei desses falsos anarquistas, que defendem ideologias radicais, sem terem a MENOR ideia do que se trata. Cansei dos que dizem ser algo, gostar de algo, só pra justificar o que fazem. Pode-se dizer que cansei de tudo. Mas ainda não cansei de ter esperança que isso vai passar.
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