Hoje sento sob a mesma árvore. A mesma árvore de todos estes anos. Podada, quebrada, cortada. Com a casca diferente, mas a mesma árvore. Uma versão diferente da mesma árvore. Com outros pombos nela, outras teias de aranha em seus galhos. Porém, sempre árvore, sempre pombos, sempre teias.
Diferentes versões de mim sentaram sob esta árvore. Corta.
Tem um menino correndo logo ali em frente. Rindo e jogando o que parece ser um brinquedo de pano para o alto, totalmente alheio ao que está se passando em sua volta. Esfregando seu nariz nas portas de vidro, dando cambalhotas no chão. A mãe, distraída, conversa com uma amiga, logo ao lado. O menino se cansou, e agora se senta no chão. Ainda rola para lá e para cá, mas em um ritmo bem menor que o inicial. Corre até a mãe, pega uma garrafinha colorida e bebe dela. Se senta por mais alguns segundos e se levanta, ressurge, revigorado. Logo logo estará rodopiando pelo chão novamente, até se cansar, e se jogar no chão ao lado de sua mãe. Sua vida se resume a isso. Sua mãe.
Minha avó morreu há três dias. Eu não sinto a falta dela como achei que sentiria, nem chorei como pensei que choraria. Isso quer dizer que eu não gostava dela? Quando que eu deixei de ser aquele molequinho que não desgudava da mãe e da vó? Que passava dias perto das duas, achando, se é que se dava o trabalho de achar de achar, que elas estariam ali para sempre. Não estarão.
Hoje minha mãe chora a morte de sua mãe. Um dia eu chorarei a morta da minha. E um dia chorarão por mim. Mas, assim como eu agora vejo minha vida sem minha avó, e, mesmo esperando que demore a chegar, sem minha mãe, será que aqueles que são próximos a mim sentirão a minha? Qual o sentido dessa vida? Amar? Ser amado? Rir? Chorar? Ou simplesmente envelhecer e morrer arrependido? Não seria a vida um grande castigo? Crescer e se ver cada vez mais sozinho, incapaz de impedir a partida daqueles que importam para você. Um finito labirinto de expectativas e decepções.
Eu já me sentei neste banco, sob esta árvore, em várias situações. Para correr da chuva, para me esconder do sol, para rir, para abraçar, para ler, para comer. Ou, em algumas vezes, apenas para olhar para o céu e contar as estrelas.
Eu já fui o moleque brincalhão, que se suja no chão enquanto a mãe resolve algo. O moleque que olhava para o banco e via em cara estranho com um caderno na mão. Hoje eu sou o cara estranho no banco com um caderno na mão escrevendo sobre o pequeno babão. Minha vida é a árvore. Daqui eu vim, daqui um dia eu irei. O menininho se foi, o cara no banco um dia irá, assim como tantos já se foram antes dele. E quando minha árvore se for, quando meu banco for arrancado, outros me substituirão. Outras árvores, com outros bancos, outros cadernos falando sobre outros meninos. Ninguém é insubstituível, mas somos todos únicos.
Pode-se amar duas mulheres com a mesma intensidade, mas não será o mesmo amor. Pode-se comprar outro bem após um assalto, mas ele não será o mesmo. Um novo relógio não terá os mesmos arranhões do antigo, a mesma ferrugem. Será um relógio como o anterior, mas será outro. Será um moleque com o nariz no vidro, mas outro moleque. Serei eu no banco, na árvore. Mas não serei eu. Qual o sentido dessa vida? Não fazer sentido.
domingo, 21 de abril de 2013
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
2012 e qualquer coisa assim
Querido Papai Noel, o mundo vai acabar. Daqui alguns dias, tudo que nós conhecemos vai mudar ou deixar de existir. Em algum momento, com algum fenômeno sobrenatural, tudo vai acabar. Vidas, sonhos, amores, fortunas. Tudo. Fim. Mas tudo não acaba todo dia, Papai Noel? Todos os dias, pessoas morrem, amores desaparecem, fortunas se vão, tudo muda. Todos os dias, acordamos sendo uma pessoa, e dormimos sendo outra. O mundo sempre acaba. O mundo já acabou. O mundo sempre começa. E já começou.
Querido Papai Noel, eu queria pedir tanta coisa. Eu não quero pedir a paz mundial. Eu não quero pedir mais tempo para o mundo. Ele já teve tempo demais. E não teve tempo nenhum. Querido Papai Noel,eu não quero que o mundo acabe. Eu não quero o fim. Mas o fim já chegou tantas vezes, de tantas formas. Um fim de namoro. Um amigo morto. Um emprego perdido. Não são estes um fim do mundo, para cada pessoa envolvida? O desespero do fim repentino de um amor, a tristeza pela vida tomada antes da hora, uma fonte de renda que se foi. Não são situações que marcam fins? Querido Papai Noel, o mundo ressurge. Você conhece alguém novo. Um novo amigo aparece. Uma nova empresa te contrata. O mundo acaba e começa novamente. Eu queria entender esses ciclos. Não queria passar por tantos. Eu posso pedir isso, Papai Noel? Eu posso pedir que tudo não se repita tantas vezes? Eu posso pedir alguma coisa?
Querido Papai Noel, eu quero ter dinheiro. Eu quero sucesso. Eu quero poder comprar as coisas que eu sonhava ter, as coisas que pedi em outras cartas que não escrevi. Eu não quero que o meu ciclo acabe. Eu não quero ser mais uma repetição. Eu não vou pedir milagres natalinos, amor, paz, amizade, e tantas outras coisas que tantas outras cartas sempre pedem. Eu nem sei se vou pedir alguma coisa. Eu só quero não ser mais um a pedir tantas coisas que nunca chegam. Eu só quero o direito de querer. Eu só quero poder. É pedir muito, Papai Noel?
Querido Papai Noel, eu queria que meu pai ganhasse tanto dinheiro quanto ele trabalha. Queria que ele tivesse o reconhecimento que ele merece. Eu não sei o que ele quer. Eu só queria que ele tivesse as coisas que ele quer. Quantos outros pedem por seus pais? Eu só quero que esse ciclo não acabe. Eu só quero tê-los para sempre. É Natal, eu posso fazer esse tipo de pedido. Eu queria que minha mãe se desse bem com a mãe dela. É triste ver um ciclo que se fecha assim. É triste saber que o meu irá se fechar assim. Eu posso parar o tempo, Papai Noel? Eu posso tentar evitar o inevitável?
Querido Papai Noel, e se o mundo não acabar? Além do que já acaba todos os dias. E se tudo continuar? Seremos diferentes das mesmas pessoas que nunca fomos. E se acabar? Se esse for o ciclo final, o que nos resta? Aproveitar uma semana? Viver esse pequeno resto de vida, na esperança de chegar satisfeito ao fim? Nunca aceitaremos o fim. Não fomos feitos para morrer. Fomos feitos para viver. Mas não fomos feitos para saber viver. A imortalidade não é tão desejada porque temos medo da morte, mas sim porque temos medo da vida. Sempre há o que fazer, sempre há algo a ser corrigido. Nosso tempo de vida nunca é o bastante. Não queremos perder a juventude. Não queremos perder nossos pais. Não queremos perder nossa família. Não queremos perder. Eu posso viver para sempre, Papai Noel?
Querido Papai Noel, eu quero a eternidade de momentos. Eu quero a fugacidade de uma paixão. Eu quero as lembranças de uma juventude. As saudades da velhice. Eu quero viver. Eu não quero arrependimentos. Eu não quero desejar a imortalidade. Eu quero aceitar meu fim. É querer demais? É sonhar demais, Papai Noel? É esperar demais?
Querido Papai Noel, eu quero esperança. Esperança de que as coisas irão mudar. Esperança de que as coisas continuarão sendo as mesmas. Esperança.
Querido Papai Noel. Você não existe. Você não lerá esta carta, assim como não leu todas as outras milhares que lhe foram enviadas. Cartas sem um endereço. Cartas com um conteúdo. Com uma idéia. Cartas pedindo por uma vida. Cartas escritas por pessoas que esperam seus sonhos.
Querido Papai Noel. Eu quero viver.
Querido Papai Noel, eu queria pedir tanta coisa. Eu não quero pedir a paz mundial. Eu não quero pedir mais tempo para o mundo. Ele já teve tempo demais. E não teve tempo nenhum. Querido Papai Noel,eu não quero que o mundo acabe. Eu não quero o fim. Mas o fim já chegou tantas vezes, de tantas formas. Um fim de namoro. Um amigo morto. Um emprego perdido. Não são estes um fim do mundo, para cada pessoa envolvida? O desespero do fim repentino de um amor, a tristeza pela vida tomada antes da hora, uma fonte de renda que se foi. Não são situações que marcam fins? Querido Papai Noel, o mundo ressurge. Você conhece alguém novo. Um novo amigo aparece. Uma nova empresa te contrata. O mundo acaba e começa novamente. Eu queria entender esses ciclos. Não queria passar por tantos. Eu posso pedir isso, Papai Noel? Eu posso pedir que tudo não se repita tantas vezes? Eu posso pedir alguma coisa?
Querido Papai Noel, eu quero ter dinheiro. Eu quero sucesso. Eu quero poder comprar as coisas que eu sonhava ter, as coisas que pedi em outras cartas que não escrevi. Eu não quero que o meu ciclo acabe. Eu não quero ser mais uma repetição. Eu não vou pedir milagres natalinos, amor, paz, amizade, e tantas outras coisas que tantas outras cartas sempre pedem. Eu nem sei se vou pedir alguma coisa. Eu só quero não ser mais um a pedir tantas coisas que nunca chegam. Eu só quero o direito de querer. Eu só quero poder. É pedir muito, Papai Noel?
Querido Papai Noel, eu queria que meu pai ganhasse tanto dinheiro quanto ele trabalha. Queria que ele tivesse o reconhecimento que ele merece. Eu não sei o que ele quer. Eu só queria que ele tivesse as coisas que ele quer. Quantos outros pedem por seus pais? Eu só quero que esse ciclo não acabe. Eu só quero tê-los para sempre. É Natal, eu posso fazer esse tipo de pedido. Eu queria que minha mãe se desse bem com a mãe dela. É triste ver um ciclo que se fecha assim. É triste saber que o meu irá se fechar assim. Eu posso parar o tempo, Papai Noel? Eu posso tentar evitar o inevitável?
Querido Papai Noel, e se o mundo não acabar? Além do que já acaba todos os dias. E se tudo continuar? Seremos diferentes das mesmas pessoas que nunca fomos. E se acabar? Se esse for o ciclo final, o que nos resta? Aproveitar uma semana? Viver esse pequeno resto de vida, na esperança de chegar satisfeito ao fim? Nunca aceitaremos o fim. Não fomos feitos para morrer. Fomos feitos para viver. Mas não fomos feitos para saber viver. A imortalidade não é tão desejada porque temos medo da morte, mas sim porque temos medo da vida. Sempre há o que fazer, sempre há algo a ser corrigido. Nosso tempo de vida nunca é o bastante. Não queremos perder a juventude. Não queremos perder nossos pais. Não queremos perder nossa família. Não queremos perder. Eu posso viver para sempre, Papai Noel?
Querido Papai Noel, eu quero a eternidade de momentos. Eu quero a fugacidade de uma paixão. Eu quero as lembranças de uma juventude. As saudades da velhice. Eu quero viver. Eu não quero arrependimentos. Eu não quero desejar a imortalidade. Eu quero aceitar meu fim. É querer demais? É sonhar demais, Papai Noel? É esperar demais?
Querido Papai Noel, eu quero esperança. Esperança de que as coisas irão mudar. Esperança de que as coisas continuarão sendo as mesmas. Esperança.
Querido Papai Noel. Você não existe. Você não lerá esta carta, assim como não leu todas as outras milhares que lhe foram enviadas. Cartas sem um endereço. Cartas com um conteúdo. Com uma idéia. Cartas pedindo por uma vida. Cartas escritas por pessoas que esperam seus sonhos.
Querido Papai Noel. Eu quero viver.
domingo, 23 de setembro de 2012
Uma noite qualquer
Alguma coisa faz barulho lá fora. Trovão, fantasma ou ladrão. Não sei. Meu cachorro não late. Já latiu tanto por tão menos.
O som me lembra o de algo sendo arrastado, mas, ao mesmo tempo, o som de crianças brincando. E meu cachorro não late. Já latiu tanto o dia todo.
Tem algo lá fora que me incomoda, e eu não sei dizer o que é. Algo que me irrita, algo que tira o meu conforto. Estou no meio das minhas cobertas. Um relâmpago repentino ilumina meu quarto. Penso ver alguma cena digna de filme de terror, em meio às sombras. Galhos retorcidos, ou algo assim. Mas não. Não vejo nada. A dúvida incomoda mais que a certeza. Não ver nada não me dá segurança alguma.
Outro relâmpago, esse mais longe. Só ouço, segundos depois, o trovão. O barulho se repete. Já não lembro mais se ouvi mesmo um barulho ou se quis ouvir. Dessa vez, mais próximo. Já dentro da casa. Já além do alcance de meu cachorro. Escuto minha mãe andando em seu quarto. Deve ter acordado com os anúncios de chegada da tempestade. Como não acordar?
Já há algum tempo que não ouço mais barulho algum, além do som das gotas de chuva no telhado. Não ouço o choro do meu cachorro. Não ouço os roncos de meu irmão. Não ouço os passos de minha mãe. Não ouço mais nada. Apenas o silêncio frio e abafado de uma noite de chuva de setembro.
Tento sair da cama. Não acho meus chinelos. Não estão no lugar onde sempre ficam. Não gosto de ficar sem eles. Vou para a cozinha. Tomar um copo de água, olhando a chuva pela janela. Ouço um pequeno som, quase um estralo, atrás de mim. Não vejo nada, ao me virar. Apago a luz da cozinha. Alguns metros no escuro até meu quarto. A porta está fechada. Eu a deixei aberta. Deve ter sido o vento que passou pelas janelas fechadas. Entro em meu quarto. Ao me deitar, tropeço em algo. Meus chinelos, em seu lugar de sempre. Ouço um trovão. Não um trovão qualquer. O trovão. Aquele que anuncia o ponto alto da tempestade. Aquele que explicita o ápice da turbulência. Aquele que faz com que as crianças pulem de suas cadeiras. Aquele que assusta. Aquele trovão.
Não enxergo nada em meu quarto. Os trovões se tornam mais constantes, mas ao mesmo tempo, se tornam mais fracos. Começo a sentir frio, mesmo suando. Mesmo fracos, eles são longos o bastante para serem os maestros da tormenta. Começo a ouvir agora o vento. Forte vento. Bruto vento.
A eletricidade deve ter acabado, pois eu escuto o ventilador de meu irmão parando de girar. Ouço um barulho na porta da sala. Ela se abre, soltando dentro da casa todos os barulhos da tempestade. Todo o vento, toda a água, todos os trovões. Um relâmpago ilumina meu quarto. Ouço o mesmo barulho do resto da noite, agora Maia bem definido. Ouço passos. Meu cachorro late...
O som me lembra o de algo sendo arrastado, mas, ao mesmo tempo, o som de crianças brincando. E meu cachorro não late. Já latiu tanto o dia todo.
Tem algo lá fora que me incomoda, e eu não sei dizer o que é. Algo que me irrita, algo que tira o meu conforto. Estou no meio das minhas cobertas. Um relâmpago repentino ilumina meu quarto. Penso ver alguma cena digna de filme de terror, em meio às sombras. Galhos retorcidos, ou algo assim. Mas não. Não vejo nada. A dúvida incomoda mais que a certeza. Não ver nada não me dá segurança alguma.
Outro relâmpago, esse mais longe. Só ouço, segundos depois, o trovão. O barulho se repete. Já não lembro mais se ouvi mesmo um barulho ou se quis ouvir. Dessa vez, mais próximo. Já dentro da casa. Já além do alcance de meu cachorro. Escuto minha mãe andando em seu quarto. Deve ter acordado com os anúncios de chegada da tempestade. Como não acordar?
Já há algum tempo que não ouço mais barulho algum, além do som das gotas de chuva no telhado. Não ouço o choro do meu cachorro. Não ouço os roncos de meu irmão. Não ouço os passos de minha mãe. Não ouço mais nada. Apenas o silêncio frio e abafado de uma noite de chuva de setembro.
Tento sair da cama. Não acho meus chinelos. Não estão no lugar onde sempre ficam. Não gosto de ficar sem eles. Vou para a cozinha. Tomar um copo de água, olhando a chuva pela janela. Ouço um pequeno som, quase um estralo, atrás de mim. Não vejo nada, ao me virar. Apago a luz da cozinha. Alguns metros no escuro até meu quarto. A porta está fechada. Eu a deixei aberta. Deve ter sido o vento que passou pelas janelas fechadas. Entro em meu quarto. Ao me deitar, tropeço em algo. Meus chinelos, em seu lugar de sempre. Ouço um trovão. Não um trovão qualquer. O trovão. Aquele que anuncia o ponto alto da tempestade. Aquele que explicita o ápice da turbulência. Aquele que faz com que as crianças pulem de suas cadeiras. Aquele que assusta. Aquele trovão.
Não enxergo nada em meu quarto. Os trovões se tornam mais constantes, mas ao mesmo tempo, se tornam mais fracos. Começo a sentir frio, mesmo suando. Mesmo fracos, eles são longos o bastante para serem os maestros da tormenta. Começo a ouvir agora o vento. Forte vento. Bruto vento.
A eletricidade deve ter acabado, pois eu escuto o ventilador de meu irmão parando de girar. Ouço um barulho na porta da sala. Ela se abre, soltando dentro da casa todos os barulhos da tempestade. Todo o vento, toda a água, todos os trovões. Um relâmpago ilumina meu quarto. Ouço o mesmo barulho do resto da noite, agora Maia bem definido. Ouço passos. Meu cachorro late...
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
nublado, chuvisco e prédios
Menina, olhando para esse céu eu lembro de você. Eu lembro das esquinas. Eu lembro dos carros. Eu lembro da chuva. Lembro dos seus olhos.
Menina, há anos não te vejo. Não vamos mais às mesmas aulas. Não pegamos mais os mesmos ônibus. Menina, há anos não te esqueço. Sempre me lembro de você, olhando para esse céu nublado, de todo fim de Setembro. Não passo por aquela rua sem me lembrar de quando eu descia ela com você. Todo fim de tarde, menina. Três vezes por semana. E você ainda me fazia a graça de faltar.
O que aconteceu, menina? Eu prometi não sumir. A escola já não está mais lá. Eu saí de lá, me formei. Já não vou lá há algum tempo. Faço hoje o curso que dizíamos querer. Estou hoje onde dizia querer estar. Sou hoje quem eu queria ser. Mas não, menina. Nada correu como eu queria. Nada nunca corre como queremos.
Eu te encontrei há algum tempo. Você me disse ainda querer as mesmas coisas. Me disse ainda ter os mesmos planos. Me disse ainda ser a mesma pessoa. Não queria, não tinha, não era.
O que aconteceu, menina? O que foi feito de nós? O que nos tornamos? Você prometeu ligar. O que sobra é a dúvida.
Não olho para esse céu sem pensar no que foi. Não vai voltar, menina. Nada volta. Nunca. O que sobra é a memória. A memória das tardes, das esquinas e dos prédios. Eu espero te encontrar por aí, numas dessas trombadas que a gente sempre dá com velhos conhecidos. E espero que não sejamos tão velhos conhecidos assim.
É nessa época, é nesse céu de setembro-quase-outubro que eu sinto sua falta. Que passo naquela mesma rua, e me lembro de te ver de costas, subindo no último ônibus. Você não olhou para trás. Ou olhou. Ninguém olha. Eu olhei. E te vi, mais uma vez, uma última vez, em mais um fim de tarde, entre o nublado, o chuvisco e os prédios.
Menina, há anos não te vejo. Não vamos mais às mesmas aulas. Não pegamos mais os mesmos ônibus. Menina, há anos não te esqueço. Sempre me lembro de você, olhando para esse céu nublado, de todo fim de Setembro. Não passo por aquela rua sem me lembrar de quando eu descia ela com você. Todo fim de tarde, menina. Três vezes por semana. E você ainda me fazia a graça de faltar.
O que aconteceu, menina? Eu prometi não sumir. A escola já não está mais lá. Eu saí de lá, me formei. Já não vou lá há algum tempo. Faço hoje o curso que dizíamos querer. Estou hoje onde dizia querer estar. Sou hoje quem eu queria ser. Mas não, menina. Nada correu como eu queria. Nada nunca corre como queremos.
Eu te encontrei há algum tempo. Você me disse ainda querer as mesmas coisas. Me disse ainda ter os mesmos planos. Me disse ainda ser a mesma pessoa. Não queria, não tinha, não era.
O que aconteceu, menina? O que foi feito de nós? O que nos tornamos? Você prometeu ligar. O que sobra é a dúvida.
Não olho para esse céu sem pensar no que foi. Não vai voltar, menina. Nada volta. Nunca. O que sobra é a memória. A memória das tardes, das esquinas e dos prédios. Eu espero te encontrar por aí, numas dessas trombadas que a gente sempre dá com velhos conhecidos. E espero que não sejamos tão velhos conhecidos assim.
É nessa época, é nesse céu de setembro-quase-outubro que eu sinto sua falta. Que passo naquela mesma rua, e me lembro de te ver de costas, subindo no último ônibus. Você não olhou para trás. Ou olhou. Ninguém olha. Eu olhei. E te vi, mais uma vez, uma última vez, em mais um fim de tarde, entre o nublado, o chuvisco e os prédios.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Há sete anos eu peguei 3 reais na carteira da minha mãe. Fui locar um filme. Tinha acabado de chegar o "novo filme do Batman". Meu irmão já tinha assistido, tinha falado que era legal, peguei ele mesmo. Assisti, fiquei todo empolgado. Tinha sido um "filme de super herói muito legal". Passou o tempo, e eu nem lembrava direito desse filme mais.
Há quatro anos, Heath Ledger morreu. O máximo que eu sabia sobre a tal continuação era que ele seria o Coringa. Fui assistir com meu pai sem nem lembrar direito do primeiro filme. Saí de lá espantado com o Coringa, até coloquei "why so serious" no subnick do msn. Um personagem genial, um filme genial, um diretor genial, tudo genial. Passou, ficou para trás assim como o outro.
Anunciaram o final, o terceiro filme. Assisti os dois primeiros de novo, vi que não tinha entendido porra nenhuma da primeira vez.
Há seis horas eu peguei uma fila de cinema. Para ver um show de efeitos especiais, mais um capítulo da saga do "cavaleiro das trevas". Três horas depois, acabava, Tudo. Acabava a história, acabavam sete anos. Sete anos atrás, eu ouvia Green Day e Avril Lavigne e jurava ser "do rock". O Batman era novo, e eu também. Jogava bola na rua, pegava três reais da carteira da mãe e ia locar um filme. Quem é que ainda loca filmes ?
Quatro anos atrás, eu morava em Rondônia, ouvia The Killers, jogava Guitar Hero, e achava que ser rebelde era não fazer as tarefas de literatura. O Batman era mais sinistro, e eu, eu não sei. Hoje, eu não sei mais aonde moro. Não pego mais três reais com minha mãe. Não jogo mais bola na rua. Não jogo mais Guitar Hero e muito menos me acho "do rock".
O Batman envelheceu. O Batman se tornou incerto. Eu não sei se envelheci. Se cresci. Ou se não foi nenhum dos dois. Se o tempo simplesmente passou. Há seis horas eu fui um menino de 11 anos, um falso rondoniense de 14, e um perdido de 18. Há seis horas, eu vi mais que um filme. Eu vi uma parte da minha vida, mesmo que não na tela. Há seis horas eu entendi, de onde vem todo o peso na voz de quem diz que "o tempo passa, meu filho". Ou acho ter entendido.
Os filmes acabaram, os anos se passaram. E agora, José ?
Há quatro anos, Heath Ledger morreu. O máximo que eu sabia sobre a tal continuação era que ele seria o Coringa. Fui assistir com meu pai sem nem lembrar direito do primeiro filme. Saí de lá espantado com o Coringa, até coloquei "why so serious" no subnick do msn. Um personagem genial, um filme genial, um diretor genial, tudo genial. Passou, ficou para trás assim como o outro.
Anunciaram o final, o terceiro filme. Assisti os dois primeiros de novo, vi que não tinha entendido porra nenhuma da primeira vez.
Há seis horas eu peguei uma fila de cinema. Para ver um show de efeitos especiais, mais um capítulo da saga do "cavaleiro das trevas". Três horas depois, acabava, Tudo. Acabava a história, acabavam sete anos. Sete anos atrás, eu ouvia Green Day e Avril Lavigne e jurava ser "do rock". O Batman era novo, e eu também. Jogava bola na rua, pegava três reais da carteira da mãe e ia locar um filme. Quem é que ainda loca filmes ?
Quatro anos atrás, eu morava em Rondônia, ouvia The Killers, jogava Guitar Hero, e achava que ser rebelde era não fazer as tarefas de literatura. O Batman era mais sinistro, e eu, eu não sei. Hoje, eu não sei mais aonde moro. Não pego mais três reais com minha mãe. Não jogo mais bola na rua. Não jogo mais Guitar Hero e muito menos me acho "do rock".
O Batman envelheceu. O Batman se tornou incerto. Eu não sei se envelheci. Se cresci. Ou se não foi nenhum dos dois. Se o tempo simplesmente passou. Há seis horas eu fui um menino de 11 anos, um falso rondoniense de 14, e um perdido de 18. Há seis horas, eu vi mais que um filme. Eu vi uma parte da minha vida, mesmo que não na tela. Há seis horas eu entendi, de onde vem todo o peso na voz de quem diz que "o tempo passa, meu filho". Ou acho ter entendido.
Os filmes acabaram, os anos se passaram. E agora, José ?
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Para uma professora.
Bem, parabéns, minha eterna professora. Há algum tempo não nos falamos. Não costumo ser nostálgico, ou dizer que sinto falta de alguma época de minha vida. Gosto de aceitar que tudo que passou, passou, e tento tirar o que posso e o que consigo de tais momentos, para ter boas lembranças deles depois. As lembranças nem sempre são boas. Mas, o que nessa vida que é sempre bom ?
Mas, não nego, sinto falta de suas aulas, de quando seus ''julhos'' somavam menos do que somam hoje. Não costumo sentir falta dos colégios que estudei. Não é não sentir. O Brasil ainda não tinha sido eliminado pela Holanda. Neymar ainda era só mais uma promessa. Restart ainda eram "os coloridinhos", e gostar deles era feio e bobo. A idade do Vinicius era desconhecida, eu saía de meus 15 anos, jurando me revoltar contra o mundo. Descobriram a idade, eu não me revoltei, Neymar cresceu, Restart ainda está aí, e Felipe Melo tomou a culpa da eliminação. Exemplos bobos, para uma simples frase. O tempo passou, minha professora. Muito, para mim. Para você, eu não sei.
Nós certamente não somos mais o que éramos naquela época. Você nos ensinava. Não sei se posso falar pelo resto daquela turma. Mas para mim não era só geografia, geopolítica, ou qualquer outra matéria que tenha sido discutida em sala. Não era uma aula qualquer. Não era uma professora qualquer. De nossos encontros tirei coisas que ainda levo comigo, e que pretendo continuar levando. Não me lembro de muitas partes da geografia. Dormi, sim, em mais de uma ocasião. Não lembro de tudo e mentiria em dizer que lembro. Mas o que eu lembro, me agrada até hoje. Bons tempos que passaram há tanto tempo, tão pouco tempo.
Eu usava um aparelho na coluna e você usava saias gigantes. Eu por trás de meus óculos, e você com seu all-star. Eu via, e vejo, em você, uma professora que extrapolava as barreiras da sala de aula. Uma pessoa que extrapola as barreiras da vida. Talvez fosse mera admiração pela irreverência. Não sei. Talvez fosse puramente admiração. 2010 me foi um ano diferente. Foi um ano novo. E eu gosto de lembrar que passei, mesmo que pequena parte dele, em suas aulas. Não costumo sentir falta de colégios, não costumo elogiar professores. Mas em tudo, se tem uma exceção. Você foi uma exceção, em um ano de "vocês precisam estar prontos para o vestibular !". Não sei se teria o mesmo fascínio, não fosse a interrupção repentina de suas aulas. Mas, novamente, não gosto de pensar no que poderia ter sido. Gosto de pensar no que foi. E foi algo único, ter você como professora.
Não acho que eu possa dizer algo que você nunca tenha ouvido, mas eu digo, que você seja sempre a extrapoladora de barreiras. Que sua presença seja sempre tão agradável e construtiva para tantos outros como foi para mim. Felicidades, professora. Mestra. Referência. Um feliz aniversário.
Mas, não nego, sinto falta de suas aulas, de quando seus ''julhos'' somavam menos do que somam hoje. Não costumo sentir falta dos colégios que estudei. Não é não sentir. O Brasil ainda não tinha sido eliminado pela Holanda. Neymar ainda era só mais uma promessa. Restart ainda eram "os coloridinhos", e gostar deles era feio e bobo. A idade do Vinicius era desconhecida, eu saía de meus 15 anos, jurando me revoltar contra o mundo. Descobriram a idade, eu não me revoltei, Neymar cresceu, Restart ainda está aí, e Felipe Melo tomou a culpa da eliminação. Exemplos bobos, para uma simples frase. O tempo passou, minha professora. Muito, para mim. Para você, eu não sei.
Nós certamente não somos mais o que éramos naquela época. Você nos ensinava. Não sei se posso falar pelo resto daquela turma. Mas para mim não era só geografia, geopolítica, ou qualquer outra matéria que tenha sido discutida em sala. Não era uma aula qualquer. Não era uma professora qualquer. De nossos encontros tirei coisas que ainda levo comigo, e que pretendo continuar levando. Não me lembro de muitas partes da geografia. Dormi, sim, em mais de uma ocasião. Não lembro de tudo e mentiria em dizer que lembro. Mas o que eu lembro, me agrada até hoje. Bons tempos que passaram há tanto tempo, tão pouco tempo.
Eu usava um aparelho na coluna e você usava saias gigantes. Eu por trás de meus óculos, e você com seu all-star. Eu via, e vejo, em você, uma professora que extrapolava as barreiras da sala de aula. Uma pessoa que extrapola as barreiras da vida. Talvez fosse mera admiração pela irreverência. Não sei. Talvez fosse puramente admiração. 2010 me foi um ano diferente. Foi um ano novo. E eu gosto de lembrar que passei, mesmo que pequena parte dele, em suas aulas. Não costumo sentir falta de colégios, não costumo elogiar professores. Mas em tudo, se tem uma exceção. Você foi uma exceção, em um ano de "vocês precisam estar prontos para o vestibular !". Não sei se teria o mesmo fascínio, não fosse a interrupção repentina de suas aulas. Mas, novamente, não gosto de pensar no que poderia ter sido. Gosto de pensar no que foi. E foi algo único, ter você como professora.
Não acho que eu possa dizer algo que você nunca tenha ouvido, mas eu digo, que você seja sempre a extrapoladora de barreiras. Que sua presença seja sempre tão agradável e construtiva para tantos outros como foi para mim. Felicidades, professora. Mestra. Referência. Um feliz aniversário.
Assinar:
Postagens (Atom)